12 de junho de 2024
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A implosão do PSL, o partido do presidente Bolsonaro, irá desorganizar as votações no Congresso nas próximas semanas, com a notável exceção da reforma da previdência. Bolsonaro passou dez meses brigando com seus adversários reais e imaginários, o PT, os índios, as ONGs, Macron, Doria, mas agora se superou. Ele briga com os aliados.

Aos fatos:

▪ O presidente iniciou o conflito ao dizer a um eleitor que o presidente do partido, Luciano Bivar, estava “queimado”. Dias depois, a Polícia Federal foi à casa de Bivar, dentro das investigações sobre desvio de dinheiro do fundo eleitoral com candidatas laranjas. Há fortes indícios de fraude no PSL de Minas Gerais e Pernambuco.

▪ Bolsonaro aproveitou a fragilidade de Bivar para tentar tomar o controle do partido. Ele requereu a Bivar a realização de uma auditoria externa nas contas da legenda, que recebe R$ 8 milhões por mês de fundo partidário. Em gestos de rompimento, o presidente articulou para tentar derrubar o líder do PSL na Câmara, o folclórico Delegado Waldir, e destituiu a deputada Joice Hasselmann do cargo de líder do governo.

▪ O presidente pessoalmente telefonou e enviou áudios para obter a assinatura de 27 deputados para impor o nome do filho Eduardo como novo líder. Em resultado vexatório, o presidente não conseguiu os 27 e o delegado Waldir terminou a semana ainda como o líder do partido. Waldir foi gravado por um colega ameaçando “implodir o presidente, esse vagabundo”.

▪ Na sexta-feira, 18, Waldir acusou o presidente de tentar comprar deputados.

“A questão da implosão era o áudio que foi divulgado do presidente tentando comprar parlamentares ao oferecer cargos e o controle partidário para aqueles parlamentares que votassem no filho do presidente”, afirmou.

“Nada do que eu falei [no áudio] é mentira. Se você for traído, como vai se sentir? Eu fui traído. O presidente pessoalmente está interferindo para me tirar da liderança. Isso não é traição?”, disse ao chegar à reunião da Executiva. “Se eu sou fiel a ele desde 2011. Se ele pessoalmente, junto com o líder do governo [deputado] Vitor Hugo [PSL-GO] e o senador [governador] Ronaldo Caiado [DEM] trabalham para me derrubar do diretório de Goiás. E assim está fazendo com outros parlamentares no país todo. Isso não é traição, isso não é vagabundagem? Então eu não retiro nada do que eu falei”.

▪ Afastada, Joice também ameaçou os Bolsonaros. Em sua conta no Twitter, a deputada escreveu “sei o que vocês fizeram no verão passado”.

O retrato, portanto, é de uma barafunda. Mas quais as consequências?

Jair Bolsonaro termina a semana mais fraco. A última vez que um presidente se expôs publicamente a um erro de avaliação política foi quando Dilma Rousseff e Jacques Wagner acreditaram que poderiam evitar o impeachment apostando nos poderes da família Picciani. Deu no que deu.

Lógico que a situação do presidente é mais confortável. É fora de órbita a ideia de um processo de impeachment a partir das insinuações do Delegado Waldir de que Bolsonaro estaria comprando deputados. Mas também é óbvio a demonstração de inabilidade de um presidente que sequer controla 27 deputados do seu partido.

Mas sem metade do PSL, o que faz Bolsonaro? Provavelmente, nada. O presidente não tem pressa em trocar de partido e, em tese, Luciano Bivar pode se encrencar nas investigações da Polícia Federal.

Como sempre, a questão toda está no dinheiro. O PSL é um partido de aluguel e Bivar, como dezenas de outros dirigentes de partidos, fez do controle das candidaturas um meio de vida. Bolsonaro sabia muito disso quando decidiu se filiar. Em 2018, o PSL tinha 2 deputados federais e um fundo partidário de R$ 9 milhões por mês. Com a onda Bolsonaro, chegou a 53 deputados, R$ 8 milhões por mês e a perspectiva de quase R$ 800 milhões até 2022 (sim, você leu certo. É muito dinheiro).

Bolsonaro tem a máquina federal nas mãos, portanto pode dispensar os fundos eleitorais, mas os deputados que só se elegeram pela onda pensam diferente. A lei é clara: os mandatos dos deputados federais pertencem ao partido e o fundo eleitoral não pode ser transferido. Ou seja, mesmo se conseguirem manter seus mandatos por algum acordo com Luciano Bivar, os deputados bolsonaristas não levam consigo o dinheiro.

Mas isso muda as votações? Ajudar não ajuda. É fato que o PSL não era protagonista das negociações e continuará não sendo, mas agora Paulo Guedes dependerá muito mais de Rodrigo Maia, cujos interesses não são os do governo, mas o de se manter como o presidente do consenso.

Um exemplo hipotético. Na agenda do mercado, a privatização da Eletrobras é uma questão de data. A ação disparou nessa semana com a confirmação de que o Ministério da Economia enviará o pedido de privatização ao Congresso. Só que os deputados do Nordeste são reticentes por vários interesses, legítimos e ilegítimos, sobre a Chesf, que também será vendida caso a Eletrobras vá a leilão. Até o barata-voa do PSL, havia poucas dúvidas da privatização da Eletrobras. Agora vai depender de uma negociação de Maia com a bancada nordestina.

Com o PSL implodido, as negociações serão mais longas e as votações mais lentas.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

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