12 de agosto de 2020
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Em outubro de 2018, Thomas Traumann lançou o livro “O pior emprego do mundo – 14 ministros da Fazenda contam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no seu bolso”, com ampla repercussão na imprensa (fotos ao lado). A obra é resultado de três anos de pesquisa e de entrevistas presenciais com 14 ex-ministros da Fazenda, entre eles Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso, Guido Mantega, Henrique Meirelles, Antonio Palocci e Zélia Cardoso de Mello, que relataram fatos marcantes como planos Cruzado, Real, confisco das cadernetas, tarifas de energia, dívida externa e hiperinflação – para quem não viveu ou se esqueceu do que é uma inflação descontrolada, o livro traz um dado espantoso: o valor de compra de um automóvel Gol em agosto de 1989 servia apenas para comprar os quatro pneus sete meses depois, em março de 1990.

Trata-se de uma grande reportagem sobre o poder, como ele é exercido e a complexa relação entre o comandante da economia e o presidente da república. Na obra, Traumann traça um vasto panorama da economia brasileira e aborda as piores crises dos últimos 50 anos. Explica ainda como o Brasil se tornou o país com a maior dívida externa do mundo, mostra de que maneira os protestos de 2013 influenciaram na explosão do déficit das contas públicas e revela como a economia foi decisiva para o impeachment de Fernando Collor e Dilma Rousseff, mas salvou FHC, Lula e Michel Temer nas votações no Congresso.

Algumas curiosidades que constam no livro, que está à venda no site da Amazon.

– Paulo Guedes, do governo Bolsonaro, não é o primeiro a comandar um superministério. Na era Collor, o ministro Marcílio Marques Moreira acumulou as pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria. Acabou apanhando por causa da crise política.

– Diante da iminência do choque do petróleo, o então ministro da Fazenda Delfim Netto propôs ao presidente Médici, em 1972, o fim do monopólio da Petrobras e a abertura do mercado como forma de reduzir a dependências das importações brasileiras, que haviam explodido com o crescimento do chamado Milagre Econômico. A proposta foi bombardeada pelo general Ernesto Geisel, que presidia a Petrobras e tinha mais poder que os ministros da Esplanada em Brasília. Geisel não acreditou na informação que Delfim trouxera de uma reunião do FMI de que os árabes preparavam uma alta unificada de preços.  O então ministro francês Giscard D’Estaing foi o autor da confidência a Delfim, mas Geisel reagiu: “Quem entende de petróleo sou eu.” Pouco depois, os países árabes criaram a OPEP e o preço do barril de petróleo saltou de US$ 3,00 para US$ 11,30 de imediato.

– No final de 1989, com o Brasil já vivendo uma hiperinflação e com um governo sem credibilidade, o Ministro Maílson da Nóbrega sugeriu e o presidente Sarney convocou uma reunião para discutir sua renúncia ao cargo. A ideia era antecipar a posse do futuro presidente, Fernando Collor, que só ocorreria em 15 de março de 1990, tempo demais para um governo sem alternativas para deter a crise. A proposta só não vingou por reação do ministro do Exército, Leônidas Pires. O general disse que a renúncia poderia “manchar a imagem dos militares na transição democrática”.

– No início de 2013, Dilma Rousseff fez um pronunciamento em rede nacional para anunciar que a redução da tarifa de energia elétrica para o consumidor seria de 18% e de até 32% para a indústria e comércio. O ministro Guido Mantega confidenciou a Traumann que não teve palavra final sobre isso. “A minha ideia era só fazer o desconto para as empresas. Tentei argumentar, mas a presidente reagiu: ´Tem que ser assim porque se eu fizer um desconto apenas para a indústria vão dizer que não estou beneficiando a população´. Argumentei. Ela não ouviu e enfiou todos os domicílios no projeto. Não havia um cálculo detalhado de quanto custaria o programa incluindo o desconto para as residências”.

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